Quem treina sempre a mesma coisa pode estar deixando longevidade na mesa. É o que sugere um grande estudo da Harvard T.H. Chan School of Public Health, publicado em janeiro de 2026 na revista BMJ Medicine por Han Han e colaboradores. Os pesquisadores acompanharam 70.725 mulheres (Nurses' Health Study, de 1986 a 2018) e 40.742 homens (Health Professionals Follow-Up Study, de 1986 a 2020), todos sem diabetes, doença cardiovascular, câncer, doença respiratória ou neurológica no início. Foram mais de 2,4 milhões de pessoas-ano de acompanhamento (medida que soma o tempo em que cada participante foi observado) e 38.847 mortes registradas.
A pergunta central era simples: além de quanto você se exercita, importa quantos tipos diferentes de atividade você pratica? Para medir a variedade, os autores contaram em quantas atividades distintas cada participante se engajava de forma consistente, como caminhada, corrida, bicicleta, natação, tênis, subir escadas, remo ou ginástica e musculação. Essas informações foram atualizadas a cada dois anos, por meio de questionários validados.
O resultado principal chama atenção. Mesmo depois de ajustar os números pelo volume total de atividade física, quem estava no grupo de maior variedade teve 19% menos risco de morrer por qualquer causa do que quem estava no grupo de menor variedade. Para causas específicas (doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias e outras), a redução ficou entre 13% e 41%. Em outras palavras: duas pessoas que dedicam o mesmo tempo ao exercício não colhem necessariamente o mesmo benefício, e quem diversifica tende a sair na frente.
O estudo também comparou cada modalidade isoladamente, usando a razão de risco (hazard ratio, ou HR), em que valores abaixo de 1 indicam menos risco de morte. Comparando o maior com o menor nível de prática, a caminhada teve HR de 0,83 (17% menos risco), o tênis ou squash 0,85, o remo ou ginástica 0,86, a musculação e outros exercícios de resistência 0,87 (13% menos), a corrida 0,87, a corrida leve (jogging) 0,89, subir escadas 0,90 e a bicicleta 0,96. A natação foi a exceção, sem associação significativa (HR de 1,01). Isso não significa que ela seja inútil: o estudo mediu apenas mortalidade, não outros benefícios da modalidade.
Os autores concluem que a prática contínua de vários tipos de atividade física pode ajudar a prolongar a vida, e que essa associação independe da quantidade total de exercício. Na prática, o recado não é treinar mais horas, e sim montar uma rotina mais completa: força (musculação) algumas vezes por semana, uma base aeróbica (caminhada, corrida ou bicicleta) e pelo menos uma atividade diferente, como um esporte de raquete, remo ou escadas.
Vale lembrar os limites do estudo. Ele é observacional, ou seja, mostra associação, mas não prova que a variedade sozinha causa a redução de mortes. Os participantes eram enfermeiras e profissionais de saúde dos Estados Unidos, e a atividade física foi relatada por questionário, o que pode não representar toda a população. Ainda assim, são mais de 111 mil pessoas acompanhadas por décadas, e o recado combina com o que já se recomenda na prática: o melhor treino é o que você mantém ao longo do tempo e não se limita a um único tipo de exercício.
Referência (PubMed): Han H, Hu J, Lee DH, Zhang Y, Giovannucci E, Stampfer MJ, Hu FB, Hu Y, Sun Q. Physical activity types, variety, and mortality: results from two prospective cohort studies. BMJ Medicine 2026;5(1):e001513. DOI 10.1136/bmjmed-2025-001513.


