Se você usa (ou pensa em usar) Ozempic, Wegovy ou Mounjaro, já deve ter ouvido isso de mim: emagrecer rápido com remédio tem um lado ruim que pouca gente fala — parte do que você perde não é gordura, é músculo. E isso muda tudo na hora de pensar o treino.
Um estudo apresentado em maio de 2026, no Congresso Europeu de Aterosclerose (EAS), trouxe um dado que confirma algo que eu já defendo há tempos: quem combina o medicamento com treino de força perde muito menos músculo do que quem usa só o remédio. E tem resultado que só aparece em quem treina — não em quem só toma a medicação.
O que os pesquisadores fizeram
Os cientistas usaram camundongos com um perfil parecido com o de gente obesa e com risco cardiovascular alto, e dividiram os bichinhos em quatro grupos por 14 semanas: um sem fazer nada, um só com semaglutida (o princípio ativo do Ozempic), um só treinando, e um fazendo as duas coisas juntas.
O que deu pra ver
O grupo que juntou remédio + treino saiu na frente em quase tudo:
- Perdeu mais gordura: 45% contra 31% de quem só usou o medicamento.
- Perdeu bem menos músculo: só 8% de massa magra, contra 11% de quem não treinava. Não zerou a perda, mas segurou boa parte dela.
- Só esse grupo ficou mais forte de verdade: melhora na força de preensão e no tamanho das fibras do músculo da perna (a "batata da perna"). Nem o remédio sozinho, nem o treino sozinho, deram esse resultado.
- Saúde metabólica melhor em geral: menos inflamação, menos gordura no fígado e menos placa nas artérias no grupo combinado.
Antes de sair comemorando: alguns pontos importantes
Isso foi testado em camundongos, não em gente — então é um indício forte, não uma prova fechada. Os próprios pesquisadores dizem que precisa confirmar isso em estudos com humanos antes de bater o martelo. E vale reforçar: nada aqui substitui acompanhamento médico. Quem usa esses remédios precisa de orientação de um médico, sempre.
Dito isso, o recado de fundo não muda: o corpo só "decide" manter músculo quando você dá um motivo pra isso — e até hoje, o motivo mais forte que a ciência conhece é o estímulo do treino de força. Mesmo com o corpo perdendo peso rápido (como acontece com esses medicamentos), treinar continua sendo o que sinaliza "não descarta esse músculo".
Na prática, o que isso quer dizer pra você
Se você está nesse tratamento (ou pensando em entrar), ou se você é profissional e atende quem está:
- Treino de força não é complemento, é parte do tratamento. Com a perda de peso acelerada que o remédio provoca, treinar pesado deixa de ser opcional.
- Proteína na quantidade certa continua essencial — ela e o treino trabalham juntos, um não substitui o outro.
- Médico e personal andando junto é o caminho mais seguro: ajuste de dose, efeitos colaterais e evolução do treino precisam estar alinhados.
- Olhe pra força, não só pra balança. Se você está mais forte (ou pelo menos mantendo a força), é sinal de que o músculo está sendo preservado — isso a balança não mostra.
Resumindo: remédio pra emagrecer não é desculpa pra parar de treinar — é motivo pra treinar ainda mais forte.
Fonte: Inia J, et al. "Semaglutide and exercise synergy in obesity: preserving muscle mass and uncovering organ crosstalk." Apresentado no 94º Congresso da European Atherosclerosis Society (EAS), Atenas, maio de 2026. Cobertura: European Medical Journal (EMJ), 29 de maio de 2026.



