A musculação pode começar a “encolher” as células de gordura antes mesmo de qualquer perda de peso aparecer na balança. É o que sugere um novo estudo de pesquisadores da Unicamp, com apoio da Fapesp.

A pesquisa foi conduzida por Daniela Gomes de Melo e colaboradores do Laboratório de Biologia Celular do Exercício (Ecebil) da Unicamp, sob coordenação do professor Leandro Pereira de Moura, e publicada em 2026 na revista Life Sciences. No experimento, camundongos obesos da linhagem Swiss passaram 14 semanas em dieta hiperlipídica para ganhar peso e, em seguida, foram submetidos a apenas 7 dias de treino de força — subidas em uma escada de 70cm de altura, carregando até 70% da carga máxima que conseguiam suportar.

O resultado chamou atenção dos pesquisadores: mesmo sem qualquer redução no peso corporal dos animais, as células de gordura (adipócitos) do tecido adiposo mesentérico — aquele que envolve os intestinos — ficaram visivelmente menores. O mecanismo por trás disso tem nome: a via ABHD5-ATGL, que ativa enzimas responsáveis por “quebrar” a gordura armazenada dentro da célula, um processo chamado lipólise. Ao mesmo tempo, o treino reduziu a atividade da SCD1, enzima ligada à formação de nova gordura.

Na prática, isso sugere que o músculo que trabalha durante o treino de força pode enviar sinais que remodelam o metabolismo da gordura em outras partes do corpo, antes mesmo de qualquer mudança visível de peso — um indício de que os benefícios metabólicos da musculação começam antes do que o espelho ou a balança mostram.

É importante pôr o achado na proporção certa: o estudo foi feito em camundongos machos e avaliou apenas um depósito de gordura, e os próprios autores tratam o resultado como preliminar e não farmacológico — ainda não há garantia de que o mesmo mecanismo se repita, na mesma intensidade, em humanos. Mas é mais uma peça se somando a um conjunto cada vez maior de evidências de que o treino de força tem efeitos metabólicos que vão muito além da queima de calorias durante a sessão.

Para quem treina esperando ver resultado “na balança”, a lição prática é de paciência: é possível que o corpo já esteja mudando por dentro — na forma como guarda e processa gordura — antes que isso apareça em qualquer número. Mais um motivo para manter a consistência no treino de força, mesmo quando o resultado ainda não é visível a olho nu.